Mensagem de Paz

Durante o rito de Canonização de São Charbel Makhlouf
o Santo Padre pronunciou o seguinte discurso:

Veneráveis irmãos
E caríssimos Filhos


A Igreja inteira, do Oriente e do Ocidente, é hoje convidada a uma grande alegria. O nosso coração volta-se para o céu, onde agora sabemos com certeza que São Charbel Makhlouf está  associado à felicidade incomparável dos Santos, na luz de Cristo, louvando e intercedendo por nós. Os nossos olhares voltam-se também para onde ele viveu, para o querido país do Líbano, cujos representantes temos a felicidade de saudar: Sua Beatitude o Patriarca Antônio Pedro Khoraiche, com bom número dos seus Irmãos e seus Filhos maronitas; os representantes dos outros ritos católicos e dos ortodoxos; e, no plano civil, a Delegação do Governo e do Parlamento libanês, a quem nós apresentamos calorosos agradecimentos.
O vosso país, caro Amigos, fora já saudado com admiração pelos poetas bíblicos, impressionados com o vigor dos cedros, tornados comparação da vida dos justos. A ele veio o próprio Jesus recompensar a fé duma mulher siro-fenícia: primícias da salvação destinada a todas as nações. E esse Líbano, lugar de encontro entre o Oriente e o Ocidente, tornou-se de fato a pátria de diversas populações, que se agarraram com ânimo à sua terra e às suas fecundas tradições religiosas. A tempestade dos acontecimentos recentes cavou rugas profundas no seu rosto e lançou uma sombra densa sobre os caminhos da paz. Mas vós conheceis a Nossa simpatia e a Nossa afeição constantes: convosco, conservamos a firme esperança duma cooperação renovada entre todos os filhos do Líbano.

E eis que hoje veneramos juntos um filho de que todo o Líbano, especialmente a Igreja maronita, se pode orgulhar: Charbel Makhlouf. Filho bem singular, artista paradoxal da paz, pois a procurou afastar do mundo, só em Deus, de que ele estava embriagado. Mas a sua lâmpada, acesa no alto da montanha do seu eremitério, no século passado, brilhou com esplendor cada vez maior, e rapidamente se estabeleceu a unanimidade a respeito da sua santidade. Nós já o honramos declarando-o Beato a 5 de dezembro de 1965, ao encerrar-se o Concílio Vaticano II. Hoje, canonizando-o e estendendo o seu culto ao conjunto da Igreja, apresentamos como exemplo ao mundo inteiro estes valoroso monge, glória da Ordem libanesa maronita e digno representante das Igrejas do Ocidente e da nobre tradição monástica das mesmas.
Não é necessário traçar em pormenores a sua biografia, bem simples aliás. Importa ao menos fazer notar até que ponto o meio cristão da sua infância enraizou na fé o jovem Youssef – era o seu nome de batismo -, e o preparou para a vocação: família de lavradores modestos, trabalhadores, unidos; animados duma fé robusta, familiarizados com a oração litúrgica da aldeia e com a devoção a Nossa Senhora; tios dedicados à vida eremítica, e principalmente mãe admirável, piedosa e mortificada até ao jejum contínuo. Ouvi as palavras dela, pronunciadas depois da separação do filho: “Se tu não houvesse de ser bom religioso, eu dir-te-ia: Volta a casa. Mas sei agora que o Senhor te quer a Seu serviço. E na minha dor por estar separada de ti, digo-lhes, resignada: 

Ele te abençoe, meu filho, e faça de ti um santo”. As virtudes do lar e o exemplo dos pais constituem sempre meio privilegiado para o desabrochar de vocações.
Mas a vocação comporta também e sempre uma decisão muito pessoal do candidato, juntando este à vocação irresistível da graça a vontade tenaz de se tornar santo: “Deixa tudo, vem! Segue-me!”. Aos 23 anos, o nosso futuro santo sai de fato da sua aldeia de Béqa Káfra e do meio da sua família, aonde não voltará mais. Então, para o noviço que fica sendo o Irmão Charbel, começa uma formação monástica rigorosa, segundo a regra da Ordem libanesa maronita, no mosteiro de Nossa Senhora de Mayfouk e depois no mais retirado, de S. Maron de Annaya; depois da profissão solene, segue estudos teológicos em São Cipriano de Kfifane e recebe a ordenação sacerdotal em 1859; levará em seguida 16 anos de vida comunitária entre os monges de Annaya e 23 de  vida completamente solitária no eremitério dos Santos Pedro e Paulo, dependente de Annaya. Neste é que entrega a alma a Deus na véspera do Natal de 1898, com 62 anos.

Que representa então uma vida assim? A prática assídua, levada ao extremo, dos três votos de religião vividos no silêncio e no despojamento monástico: primeiramente a mais estrita pobreza quanto ao alojamento e ao vestuário; uma só e frugal refeição ao dia. Trabalhos manuais pesados no clima rigoroso da montanha. Castidade que ele rodeia duma intransigência lendária. Por fim e sobretudo, obediência total aos Superiores e até mesmo aos irmãos, e ao regulamento dos eremitas é claro, mostrando assim a própria submissão completa a Deus. Mas a chave desta vida, estranha na aparência, é a busca da santidade, isto é a conformidade mais perfeita com Cristo humilde e pobre, o colóquio quase ininterrupto com o Senhor, a participação pessoal no sacrifício de Cristo por uma celebração fervorosa da Missa e pela penitência rigorosa unida à intercessão pelos pecadores. Numa palavra, a busca incessante só de Deus, a qual é própria da vida monástica, acentuada pela solidão eremítica.
Esta enumeração que os Hagiógrafos podem ilustrar com numerosos fatos concretos, dá o aspecto duma santidade bem austera, não é verdade? Detenhamos neste paradoxo, que deixa o mundo moderno perplexo, até mesmo irritado; ainda se admite num homem como Charbel Makhlouf uma heroicidade sem igual, diante da qual nos inclinamos, considerando sobretudo a sua firmeza acima da normal.
Mas não é “loucura aos olhos dos homens”, conforme dizia já o autor do livro da Sabedoria? Não faltarão até cristãos que perguntem: Cristo exigiu verdadeiramente uma renúncia tal, ele cuja vida acolhedora se afastava das austeridades de São João Batista? 

Pior ainda: alguns corifeus do humanismo moderno não chegarão mesmo, e nome da psicologia, a desconfiar que esta austeridade intransigente era desprezo abusivo e traumatizante, dos são valores do corpo e do amor, das relações de amizade, da liberdade criadora, numa palavra: da vida?
Raciocinar assim, no caso de Charbel Makhlouf e de tantos dos seus companheiros monges ou anacoretas desde o princípio da Igreja, é manifestar grave incompreensão, como se não se tratasse senão dum êxito humano; é dar prova de certa miopia diante duma realidade bem mais profunda. Sem dúvida, o equilíbrio humano não é de desprezar, e, seja como for, os Superiores e a Igreja têm de examinar se são prudentes e autênticas tais experiências. Mas a prudência e o equilíbrio humano não são noções estáticas, limitadas aos elementos psicológicos mais correntes ou só aos recursos humanos. É começar por esquecer ter o próprio Cristo expresso exigências tão abruptas àqueles que quisessem ser seus discípulos: Segue-me... e deixa que os mortos enterrem os seus mortos”. Se alguém vier após mim, sem me preferir a seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. É  esquecer também, no homem espiritual, o poder da alma, para a qual esta austeridade é primeiramente simples meio, é esquecer o amor de Deus que a inspira, o Absoluto que atrai; é ignorar a graça de Cristo que a sustenta e a faz participar no dinamismo da Sua própria Vida. É finalmente desconhecer as fontes da vida espiritual, capaz de fazer chegar a uma profundidade, a uma vitalidade, a um domínio do ser, a um equilíbrio tanto maior quanto eles não foram procurados por si mesmos: Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e o resto ser-vos-á dado por acréscimo.

De fato, quem não haveria de admirar, em Charbel Makhlouf, os aspectos positivos que a austeridade, a mortificação, a obediência, a castidade e a solidão tornam possíveis num grau raras vezes atingido? Pensai na sua liberdade soberana diante das dificuldades ou das paixões de toda a espécie, na qualidade da sua vida interior, na elevação da sua oração, no seu espírito de adoração manifestado no coração da natureza e sobretudo em presença do Santíssimo, na ternura filial para com a Virgem Maria, e em todas essas maravilhas prometidas nas bem-aventuranças e realizadas à letra no nosso santo: doçura, humildade, misericórdia, paz, alegria, participação já nesta vida no poder de cura e de conversão de Cristo. Em resumo, a austeridade colocou-o no caminho da serenidade perfeita, da verdadeira felicidade; deixou todo o lugar, bem extenso, ao Espírito Santo.
Aliás, coisa impressionante, o povo de Deus não se enganou ao apreciá-lo. Ainda em vida de Charbel Makhlouf, a santidade irradiava dele; os seus compatriotas, cristãos ou não, veneravam-no, vinham ter com ele como médico das almas e dos corpos. E desde a morte, mais brilhou ainda a luz, agora sobre o seu túmulo: quantas pessoas à busca de progresso espiritual, ou afastadas de Deus, ou sujeitas ao infortúnio, continuam a sentir a fascinação deste homem de Deus, invocando-o com fervor, enquanto outras, intituladas de apóstolos, não deixaram nenhum vestígio, como esses de que fala a Sagrada Escritura.

Sim, o gênero de santidade praticada por Charbel Makhlouf é de grande importância, não só para a glória de Deus, mas para a vitalidade da Igreja. É certo que, no único Corpo Místico de Cristo, como diz São Paulo, os carismas são numerosos e diversos; correspondem a funções diferentes, tendo cada uma o seu lugar indispensável. São necessários Pastores, que reúnem o  povo de Deus e a ele presidam com sabedoria em nome de Cristo. São necessários teólogos que perscrutem a doutrina e é necessário um Magistério que a vigie. São necessários evangelizadores e missionários, que levem a palavra de Deus por todas as estradas do mundo. São precisos catequistas, que sejam professores e pedagogos da fé: é o objetivo do Sínodo atual. São necessárias pessoas que se dediquem diretamente a ajudar os seus irmãos... Mas é preciso também gente que se ofereça como vítima pela salvação do mundo, numa penitência livremente aceita, numa oração incessante de intercessão como Moisés na montanha, num busca apaixonada do Absoluto, testemunhando que vale a pena adorarmos a amarmos a Deus por causa das suas perfeições. O estilo de vida destes religiosos, destes monges, destes eremitas, não é proposto a todos como carisma que possam imitar; mas no estado puro, de maneira radical, eles encarnam um espírito de que nenhum fiel está dispensado, exercem uma função de que a Igreja não poderia prescindir, lembram um caminho para todos salutar.

Permite-nos, ao terminar, encarecer o interesse particular da vocação eremítica do dia de  hoje. Esta parece, aliás, ir reconquistando certo favor, não explicável somente pela decadência da sociedade nem pelos constrangimentos a que ela obriga. Tal vocação pode aliás assumir formas adaptadas ao tempo atual, contanto que seja sempre vivida com discernimento e obediência. É testemunho que, longe de ser sobrevivência dum passado já morto, nos parece muito importante para o nosso mundo como para a nossa Igreja.
Bendigamos ao Senhor por nos ter dado São Charbel Makhlouf, a fim de reavivar as forças da Sua Igreja, apontando-nos para o seu exemplo e a sua oração. Oxalá o novo Santo continue a exercer influência prodigiosa, não só no Líbano, mas no Oriente todo e na Igreja inteira. Interceda ele por nós, pobres pecadores, que demasiadas vezes não nos atravemos a  arriscar fazer a experiência das bem-aventuranças, que são afinal o que nos leva à alegria perfeita. Interceda ele pelos seus irmãos da Ordem libanesa maronita, e por toda a Igreja maronita, cujos méritos e provações todos conhecem. Interceda pelo querido país do Líbano, ajude-o a vencer as dificuldades atuais, a curar as suas feridas ainda a sangar, e a caminhar na esperança. Ampare-o e oriente-o pelo caminho bom e justo, como nós o cantaremos em breve. Brilhe a sua luz sobre Annaya, unindo os homens na concórdia e atraindo-os para Deus, que ele está contemplando na felicidade eterna, Amém!
Seja louvado a Trindade Santíssima, que nos deu a alegria de proclamar Santo o monge libanês Charbel Makhlouf, como confirmação da perene e inexausta santidade da Igreja.

O espírito da vocação eremítica, que se manifesta no novo Santo, longe de pertencer a um tempo já ultrapassado, parece-nos muito importante para o nosso mundo como para a vida da Igreja. A vida social de hoje é muitas vezes caracterizada pela exuberância, pela excitação, pela busca insaciável do conforto e do prazer, unida à fraqueza de vontade cada vez maior: não recuperará o equilíbrio senão com aumento do domínio próprio, de ascese, de pobreza, de paz, de simplicidade, de interioridade e de silêncio. A vida eremítica dá-lhes disso exemplo e gosto. E na Igreja, como pensar em vencer a mediocridade e realizar autêntica renovação espiritual, não contando senão com nossas forças, não desenvolvendo uma sede de santidade pessoal, não praticando as virtudes ocultas, não reconhecendo o valor insubstituível e a fecundidade da  mortificação, da humanidade e da oração? Para salvar o mundo, para conquistá-lo espiritualmente, é necessário, segundo a vontade de Cristo, estar no mundo mas não pertencer a tudo quanto no mundo afasta de Deus.
O eremita de Annaya vem recordar-no-lo hoje com energia incomparável.