Quem Foi São Marun

Quem foi São Marun?

Infelizmente temos poucas informações sobre a vida e as atividades de nosso eremita. O único relato que nos dá alguns pormenores vem-nos de Teodoreto, bispo de Cyr, morto no ano de 458, em sua obra HISTÓRIA RELIGIOSA, escrita por volta do ano de 440. Este grande historiador nunca conheceu S. Marun pessoalmente, mas somente através dos discípulos deste homem santo. Descreveu S. Marun como “aquele que plantou para Deus o jardim que floresce agora na região de Cyr.” Não nos informa sobre a data de nascimento ou de morte de São Marun, nem nos fala sobre sua família, infância e juventude, nem nos diz algo sobre sua formação. Já no-lo apresenta adulto, no seu retiro voluntário. Todavia, graças a ele, sabemos que o monge Marun nasceu no século IV. Depois de renunciar ao mundo, levava, em seu eremitério, muitas vezes ao ar livre, vida ascética das mais austeras. O clima árido da região sabe ser cáustico, como o seu frio inclemente. Escolher estar sempre ao ar livre implica em uma resistência quase sobre-humana e uma atitude ascética radical. Não foi por acaso que seu exemplo de vida virtuoso impressionou, primeiramente, e depois atraiu tantos admiradores, muitos dos quais se transformaram em discípulos. De acordo com a história, Marun nunca se satisfez com as práticas ordinárias do ascetismo, mas “estava procurando sempre, de maneiras novas, acumular todos os tesouros da sabedoria.” Alguns autores são da opinião que S. Marun e S. João Crisóstomo estudaram juntos em Antioquia antes de 398 e que a famosa carta enviada por João Crisóstomo foi emitida certamente a este eremita Marun e não a algum outro anacoreta com o mesmo nome. Se o monge consultado nesta carta foi da região de Cyr, é certamente nosso pai espiritual, Marun. A vida monástica na Igreja não se constituiu da noite para o dia; tampouco foi obra de um só homem: A vida monástica existiu desde o começo da Igreja. No fundo, é seguir a Cristo num esforço constante de viver o Evangelho da maneira mais perfeita. Por isso, a vida monástica é chamada de “caminho da perfeição cristã”. Assim, das origens do cristianismo até nossos dias, encontramos número considerável de monges, eremitas, ascetas, que procuram viver o Evangelho, cada um acrescentando um tom particular na realização concreta desse ideal de perfeição. O monge Marun era apaixonado por Cristo, e tomado de entusiasmo pela perfeição cristã. Para atingir este ideal, renunciou ao mundo e às suas cobiças, e embrenhou-se numa das montanhas da diocese de Cyr (Monte Nabo), onde habitou nas ruínas de um antigo templo pagão dedicado à divindade local (Nabo) que demoliu, erguendo aí um altar em honra de Jesus, elevando a cruz onde antes se erguia um ídolo pagão, transformando não só aquele local específico (as ruínas do templo), mas todo o espaço que a cercava em lugar de oração e meditação. Nessas montanhas, levou vida monástica mais austera que a de seus confrades, monges da região. Sua reputação logo atraiu ao seu redor todos os que, igualmente entusiasmados pela perfeição cristã, procuravam um modelo e um guia espiritual experiente. Destarte, seus discípulos foram muito numerosos e sua escola ascética, das mais prósperas. Muitas pessoas o visitaram no seu eremitério, solicitando a cura tanto das doenças corporais quanto espirituais, e eram atendidas. Elas percebiam que Marun era um homem vocacionado não para este mundo, mas para o céu. Marun era o líder espiritual não somente dos eremitas que viveram perto dele, mas de todo o cristão fiel na área. Costumava aconselhá-los sobre seus males corporais e espirituais. Todos estes esforços apostólicos manifestaram a sabedoria e a santidade do grande eremita. São Marun morreu no início do século V, e ao que tudo indica, no ano 410. Depois de sua morte, seu corpo foi objeto de disputa entre os habitantes de diversas cidades da região, vistos os milagres que fazia. Cada uma queria para si, como relíquia, o corpo daquele santo solitário; por fim, os habitantes do lugar mais povoado e o mais forte tornaram para si o corpo; depositaram-no em um templo construído especialmente para ele, e dedicado à sua memória. O santuário não tardou em transformar-se em local de peregrinação para os fiéis vindos de todas as regiões. Após o Concílio de Calcedônia, o bispo Teodoreto trabalhou para construir o famoso mosteiro de S. Marun. Além de ser um baluarte para a defesa dos ensinos do Concílio de Calcedônia, este mosteiro foi por muito tempo o centro da herança cultural e teológica de Antioquia. No ano de 452, o Imperador Marciano mandou construir, para os discípulos deste santo, os monges maronitas, um grande mosteiro. Este mosteiro de São Marun foi o berço da Igreja Maronita. A glorificação de S. Marun Já dissemos que a morte de S. Marun ocorreu no séc. V (entre os anos 407 e 423), e que seus restos mortais foram acirradamente disputados pela população local, empenhada em erguer para ele um monumento de gratidão e de fé que fosse digno do seu testemunho de vida cristã e da sua memória. A Igreja Maronita comemorou inicialmente a festa deste grande santo aos 05 de janeiro (este é o dia em que a igreja de Kfarhai foi consagrada em sua honra.) Entretanto, no século XVII, a festa foi transferida para 09 de fevereiro. O Líbano proclamou S Marun como seu santo patrono e o papa Bento XIV concedeu uma indulgência plenária a todos que visitarem uma igreja maronita no dia 09 de fevereiro. Suas relíquias, em particular seu crânio, segundo a tradição maronita, foram levadas por seus discípulos da cidade de Barad para o convento de S. Marun ou “Beit Maroun”, construído em 452, próximo ao rio Oronte entre Alepo e Hama, na Síria atual. O crânio, posteriormente, foi levado para o Líbano, para o convento de Kfarhai, na região de Batrun, no início do séc. VII. Ouçamos o que diz o patriarca Douaihi: “Quando João Marun se estabeleceu em Kfarhai, construiu um santuário e um convento dedicados a S. Marun. E aí colocou o crânio do Santo, artesão milagroso da cura dos doentes. Por esta razão o convento foi conhecido como Rech Maro, ou seja, Cabeça de Marun.” Este crânio foi transferido, mais tarde, para a Itália. No ano de 1130, desembarcava na Síria um monge beneditino, então, abade do Mosteiro da Santa Cruz, situado a pouca distância da cidade de Folinho, na Itália, que levou consigo o crânio de S. Marun, após sua peregrinação pela Terra Santa. Voltando à sua pátria, foi propagador da devoção a S. Marun, de sorte que muitos fiéis passaram a invocá-lo com fervor. Foi então que o bispo de Folinho fez transferir o crânio para a igreja catedral, em 1194. Os fiéis fizeram uma estátua de prata representando a efígie do santo, na qual depositaram suas relíquias. O bispo D. Youssef-el-Debs relata que, quando de sua passagem pela Itália, em 1887, o bispo de Folinho lhe deu alguns fragmentos das relíquias de S. Marun. A herança de S. Marun Nascido da experiência pessoal de um eremita com Deus, transmitido aos seus discípulos diretos ou indiretos, o modo maronita de viver a fé em Cristo e de testemunhar sua adesão à Igreja atraiu um grande número de pessoas que, vivendo dentro ou fora do grande mosteiro de S. Marun, reconheciam-se como uma só grande família da qual S. Marun era o iniciador, o patriarca, o pai maior. O Evangelho diz-nos que uma árvore é conhecida por seus frutos e nós sabemos por Teodoreto que o jardim de Marun floresceu durante sua vida e após sua morte. Em sua descrição do começo da vida de Marun, Teodoreto diz que os ascetas que Marun teve por discípulos “já aumentaram o número dos santos no céu.” Podemos enumerar aproximadamente vinte santos entre os discípulos diretos de S. Marun, dos quais três são mulheres. Teodoreto descreve estes discípulos de S. Marun com estas palavras: “estes ancoretas eram virtuosos e heróicos, totalmente dedicados a uma vida de oração contemplativa. Desconheciam qualquer preocupação sobre como agradar o mundo. Eram obedientes à autoridade da Igreja e tentavam imitar seu predecessor em seus exercícios de austeridade. Às vezes, seus atos de penitência e mortificação eram excessivos, mas eram sempre obedientes à autoridade eclesiástica.”